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Revista Coletiva

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A edição mais recente da Coletiva, revista eletrônica de divulgação científica da Fundação Joaquim Nabuco,está disponível com o tema "Cidades e Cidadania".

Pode-se dizer que o assunto da vez, no Recife, há cerca de dois anos, é o próprio Recife - a cidade como ambiente inevitável à vida dos seus moradores. Essa tendência tem que ver com uma tomada de consciência, principalmente por parte da classe média, sobre problemas históricos ligados à falta de qualidade do espaço público, à precária capacidade de deslocamento e ao próprio modo de vida na metrópole. Isso justifica o porquê de quando começamos a elaborar a pauta deste número da Coletiva, em maio de 2013, o tema "cidade" já era uma certeza.Entretanto, naquele momento, o tema ganhava ainda mais urgência devido às notícias que se espalhavam sobre as manifestações que tomavam as ruas de Istambul, na Turquia, motivadas por ações autoritárias do governo, mas deflagradas pela decisão de substituir uma praça por um shopping center. Não se imaginava, na verdade, que já no mês seguinte, antes, durante e depois da Copa das Confederações no Brasil, marchas e protestos, equiparadamente notáveis aos turcos, estariam acontecendo em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e em tantas outras cidades brasileiras.

O que começou como um protesto pontual contra o aumento das passagens de ônibus, desdobrou-se em uma luta politizada pelo transporte público gratuito ao ser violentamente reprimida pelas forças policiais estaduais que seguiam ordens de, a todo custo, manter a ordem para evitar que as câmeras das redes de comunicação internacionais que transmitiriam os jogos de futebol expusessem a indignação dos descontentes. A resposta truculenta, na verdade, terminou por inflamar os ânimos de mais cidadãos para, nas ruas, reclamar contra a violência do Estado, contra os gastos com a Copa e a corrupção, a favor das liberdades individuais e de qualquer interesse, do mais geral ao mais particular. Protestar na rua tornou-se quase moda, saudosista de um tempo em que parcelas definidas da sociedade, estudantes, artistas, intelectuais e trabalhadores, identificavam no governo ditatorial brasileiro um inimigo bem definido.

A despeito de todas as dúvidas sobre a validade e as reais motivações que o cenário de inquietação levantava, a relação entre os cidadãos, os usuários e, de certo modo, também os "donos", dessas cidades e o meio urbano disponível era posta em xeque como nunca antes no Brasil. A pauta da Coletiva, portanto, não poderia deixar de tentar, minimamente, acompanhar a complexidade e as potenciais contradições que o momento inspirava, assumindo-se tão variada quanto as falas que pululavam nos jornais, noticiários, redes sociais, salas de jantar e mesas de bar.

Por conta disso, a reportagem deste número, realizada pela equipe da Coletiva, debruça-se sobre a noção de “prosperidade urbana” proposta recentemente pela Organização das Nações Unidas, sendo discutida a partir do Recife contemporâneo. Como contraponto, a seção Memória, apresentada pela pesquisadora Sylvia Couceiro, revela como a exposição de imagens sobre a vida na cidade, na década de 1920, foi capaz de surpreender e chocar alguns setores da sociedade pouco habituados a lidar com as complexidades e contradições daquela época. A seção Vídeos, por sua vez, apresenta o filme Velho Recife Novo, de Luís Henrique Leal, Caio Zatti, Cristiano Borba e Lívia Nóbrega, realizado em 2012, quando se entendia que aspectos urbanísticos que incomodavam os moradores da capital recifense possuíam raízes em estruturas sociais, políticas, econômicas e culturais e que precisavam ser explicitadas.

Como modo de aprofundar essa percepção, a entrevista deste número foi realizada com o arquiteto e professor Frederico de Holanda, com perguntas percorrendo os tão variados pontos que compõem tanto a atividade de produção do espaço como de interpretação e explicação do fenômeno urbano por seus planejadores e estudiosos. Seguindo a ordem desse raciocínio, apresentamos alguns textos que procuram entender o momento de reencontro dos cidadãos com a cidade. Allan Monteiro debate o processo de transformação do ambiente construído urbano em paralelo à mudança de mentalidade dos seus moradores, e como a busca pelo isolamento dos indivíduos transforma o padrão dos seus espaços de moradia e sua relação com a rua. Alexandre Zarias, por sua vez, enquadra a condição do gênero no escopo da relação entre mulheres e cidade, analisando seu papel específico no processo de luta pelo direito à qualidade de vida.

Depois, o artigo da professora Ermínia Maricato, de modo direto e, inevitavelmente, já impaciente, anuncia aos que ainda não entenderam que a urgência das manifestações diz respeito, essencialmente, às condições apresentadas pelas cidades brasileiras. Ele é seguido por dois artigos que tratam do fenômeno associado à pulverização dos meios de comunicação. O texto de Érico Andrade lança luz sobre a relação dos movimentos com as redes sociais a partir do caso do grupo de ativismo Direitos Urbanos, do Recife. Já o de Chico Lacerda explora os usos e contra-usos das tecnologias de registro e transmissão audiovisuais em meio às próprias ações de manifestação dos indivíduos.

A seção de artigos, porém, é encerrada por dois textos de caráter mais propositivo, representando a tentativa de enxergar soluções para um futuro mais adequado às demandas dos cidadãos. Fabiano Sobreira discorre sobre o risco de valorizar uma arquitetura autocentrada na expressão individual de seus criadores e argumenta em favor de uma cultura de concursos públicos para projetos com claro interesse social. E, finalmente, Eric van der Kooij analisa comparativamente suas experiências em duas cidades: uma tida como modelo mundial de qualidade urbanística, Amsterdam, e a outra, aquela que iniciou o tema deste número, o Recife. Esse artigo encerra-se com uma série de possíveis respostas para algumas angústias de seus moradores e visitantes, pois, pensar respostas agora é, certamente, o próximo passo.

Editor temático: Cristiano Felipe Borba do Nascimento | Editores: Alexandre Zarias e Allan Monteiro | Capa: Ana Lira/Retratografia. Memória Afetiva – Belém | Entrevista: Frederico de Holanda | Reportagem: Cláudia Ferreira, Nahyara Batista e Sthéfane Gonçalves | Artigos: Allan Monteiro, Alexandre Zarias, Chico Lacerda, Érico Andrade, Ermínia Maricato, Fabiano Sobreira e Eric Van Der Kooij | Memória: Sylvia Couceiro

Mais informações:
http://www.coletiva.org/site/index.php?option=com_k2&view=item&layout=item&id=159&Itemid=72

RBCM. Laboratório de Investigação do Espaço da Arquitetura. Departamento de Arquitetura e Urbanismo. Centro de Artes e Comunicação. UFPE . Recife — PE. (81) 2126.7362