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Tecnologia não basta

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Computador, ‘tablet’, redes sociais e até ‘smartphone’ podem ser usados em sala de aula. Mas, além de dominar a técnica, pais e professores precisam saber usá-los pedagogicamente, diz psicólogo.

Desde que os computadores pessoais começaram a se popularizar, na década de 1990, há uma expectativa de que a educação passe por uma revolução digital. Não só não houve grandes mudanças, como há quem acredite que novas tecnologias, pelo contrário, dificultem o processo de aprendizado por parte dos estudantes.

Para o psicólogo Luis Fernando Vílchez Martin, da Universidade Complutense de Madrid, na Espanha, o problema é que as ferramentas não têm sido usadas de modo adequado do ponto de vista pedagógico. Doutor em filosofia, Martin é autor de vários livros sobre educação e esteve recentemente no Brasil para participar de um simpósio internacional de neurociências, realizado em Curitiba.

“As tecnologias podem ajudar, mas por si só não solucionam nada”, resume o psicólogo, que foi membro do Conselho de Administração do Centro Consultor da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura). “É preciso saber usá-las pedagogicamente, e não só tecnicamente.”

Ele critica, por exemplo, professores que apresentam o conteúdo de suas aulas em arquivos de PowerPoint (programa de apresentação de slides) como se a técnica tornasse o aprendizado mais produtivo. “Se uma nova tecnologia apenas reproduz um método antigo, não há avanço”, diz. “Se servir para potencializar novas formas de pensamento, teremos dado um passo.”

Martin prefere não citar exemplos específicos de métodos que empreguem novas tecnologias de modo pedagógico, uma vez que cada turma demandará métodos diferentes. “Há como trabalhar de forma produtiva aspectos linguísticos, musicais e matemáticos com crianças e adolescentes de qualquer idade.”

Estudo recente feito por Martin revela que aparelhos celulares ditos inteligentes, também chamados de smartphones, têm gerado comportamento obsessivo-compulsivo em crianças. É preciso, segundo ele, haver normas quanto ao tempo de uso e idade adequada para se ter um dispositivo como esse. “Essa é uma responsabilidade tanto da família quanto da escola”, defende.

De certo modo, acredita Martin, redes sociais, tablets e até smartphones podem ser usados por crianças e adolescentes de forma proveitosa. “O fato de um estudante poder hoje se comunicar a distância com seus professores é algo bastante útil”, exemplifica.

Inteligência moral

Martin segue a linha do psicólogo cognitivo e educacional norte-americano Howard Gardner, segundo a qual existem múltiplos tipos de inteligência – linguística, musical, lógica/matemática, visual/espacial, corporal/cinestésica, interpessoal, intrapessoal, naturalista e existencialista. “Mas defendo que existe ainda uma inteligência moral, que está relacionada com a capacidade do indivíduo de discernir entre o que é justo ou não.”

“Uma pessoa pode ter uma inteligência cognitiva exacerbada, mas carecer de inteligência moral”, diz. Essa pessoa, segundo Martin, não poderia vir a ser juiz, por exemplo. Por isso, a seu ver, é necessário trabalhar todos os tipos de inteligência no processo de educação.

O psicólogo acredita que há poucas iniciativas nesse sentido em termos globais. Em Barcelona, na Espanha, destaca o exemplo do Colegio Montserrat, que adota um método individualizado, no qual são priorizadas as inteligências menos desenvolvidas.

A família teria papel fundamental nesse processo. “São os pais que podem fazer a criança cultivar afeições musicais, por exemplo.” Para Martin, a educação de qualidade é aquela que ajuda o aluno a “construir-se como ser humano”, não apenas como bom profissional para o mercado. “O que mais me agradou ao longo de minha carreira foi um aluno que me agradeceu por tê-lo tornado uma pessoa melhor.”

Fonte: Ciência Hoje

RBCM. Laboratório de Investigação do Espaço da Arquitetura. Departamento de Arquitetura e Urbanismo. Centro de Artes e Comunicação. UFPE . Recife — PE. (81) 2126.7362