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Sobre a Rio + 20, por Maria de Jesus de Britto Leite

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Arquiteta Maria de Jesus de Britto Leite
Coordenadora técnica da redbcm
Coordenadora do Curso de Arquitetura e Urbanismo da UFPE


No Jornal do Comércio de 16/06/2012 saiu uma coluna intitulada “As 7 principais propostas” que trata das sugestões do Brasil para o processo preparatório da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20) organizadas pela Comissão Brasileira para a Conferência.

As 7 Propostas versam sobre:

1) Erradicação da pobreza extrema;
2) Segurança alimentar e nutricional
3) Energia Limpa
4) Transportes urbanos eficientes
5) Cidades e Desenvolvimento urbano
6) Florestas manejadas e protegidas
7) Uso sustentável da água

Entre as 7 propostas, a quinta diz respeito diretamente à REDBCM:

“O mundo deverá definir e promover um novo padrão de ocupação, freando a expansão urbana desordenada nas megacidades e fortalecendo a governança nas cidades pequenas médias e grandes, com o provimento de serviços que assegurem qualidade de vida e geração de renda às populações”.

Entre os principais desafios para o estabelecimento das cidades sustentáveis, destacam-se:

“Fomento à construção sustentável, à eficiência energética e redução do consumo de água nos edifícios, bem como a implementação de tecnologias modernas com vantagens ambientais e a (re) qualificação progressiva dos empreendimentos habitacionais de interesse social”.

A redbcm se congratula com a visão acertada da Comissão, mas entende que dentre os desafios da Cidade Sustentável falta perceber que existem condições que antecedem e que são fundamentais ao o enfrentamento desses desafios e que não passam necessariamente pelo “provimento de serviços”. Algumas dessas condições já é prática há alguns anos em lugares do mundo que adotaram a Agenda 21, que adotam os princípios da Carta de Aalborg, da Agenda 21 Local, todos eles nascidos da busca por um planeta sustentável:

1) Mecanismos efetivos de participação do cidadão nas tomadas de decisão em prol do que poderíamos denominar de “quotidiano sustentável” e que poderia se transformar em um grande projeto nacional de educação pela cidadania.

Temos tanta necessidade de praticar um quotidiano sustentável em tantas variadas escalas de comportamento – escalas da convivência entre as pessoas, do zelo dos cidadãos com os espaços de uso público; com o bem público; com os nossos rios e mangues, enfim, com a prática coletiva de um quotidiano saudável.

As televisões brasileiras, com um pequeno apoio do Governo Federal, poderiam tirar alguns poucos minutos por dia para propagar essa prática. No Brasil, os brasileiros têm mudado seus hábitos de vestir, de se alimentar, incentivados pela propaganda televisiva seja dos comerciais seja das novelas, a ponto de estarem se perdendo as identidades locais, num processo de aculturação que assusta! Porque então não usar todo esse poder de persuasão, de influenciar as pessoas em prol dos comportamentos civilizados, em prol de um modo de ser sustentável, do “cidadão sustentável”? Porque ao invés de vermos os atores das novelas bebendo um copo de coca cola, em cenas forçadas para atender aos patrocinadores, por exemplo, não podem os escritores das novelas imaginar cenas onde as pessoas possam deixar subentendido o tanto que é vital beber uma água limpa, fresca? Cenas onde os atores pratiquem a coleta seletiva de lixo, reclamem de quem suja, depreda as estações de ônibus e metrô; cenas que mostrem o cuidado em abrir uma torneira sem extravazar, e por aí em diante?

Esse também poderia ser um tipo de Programa Brasil Carinhoso com o Planeta fácil e até barato de ser implantado;

2) A preservação dos hábitos culturais saudáveis e típicos que estão no cuidado com o patrimônio histórico, mas mais ainda, no cuidado com as maneiras de vivenciar os centros urbanos, os lugares de estar daquelas cidades que ainda podem assim ser denominadas?

Até as nossas megacidades que são mais difíceis de serem cuidadas de acordo com as propostas da Agenda 21, podem se beneficiar desse projeto. E nossas cidades médias e pequenas podem ainda mais, sendo ágeis, se beneficiar dessa visão e dessa experiência. Madrid passou a tratar seus bairros como pequenas cidades em rede para adotar o “pacto” da Agenda 21 local. Porque nossas cidades pequenas e médias não podem adotar esse mesmo tipo de pacto?

RBCM. Laboratório de Investigação do Espaço da Arquitetura. Departamento de Arquitetura e Urbanismo. Centro de Artes e Comunicação. UFPE . Recife — PE. (81) 2126.7362