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Jornada em busca da cidade ambientalmente sustentável

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Nossas grandes cidades formam regiões metropolitanas cheias de oportunidades, mas com elas vêm problemas

Problemas típicos do crescimento desenfreado dos ambientes urbanos - como calor, enchentes, inundações, deslizamentos, insegurança, trânsito lento e poluente - têm levado urbanistas, gestores públicos e até a construção civil a rever conceitos. Em contraponto, o ideal das cidades sustentáveis começa a se delinear como uma estratégia para desatar esse nó urbano.

A arquiteta Andrea Ferraz Young, do Centro de Pesquisas Meteorológicas Aplicadas a Agricultura (Cepagri) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), é especialista em integração de dados socioespaciais e ambientais com aplicação de técnicas de geoprocessamento e sensoriamento remoto.

Com experiência na área de Planejamento Urbano e Regional e atuação em áreas como Megacidades, Vulnerabilidade Socioambiental e Mudanças Climáticas; Desastres Ambientais e Sistemas de Monitoramento por Satélite; Medidas de Adaptação e Resiliência Urbana; Indicadores Populacionais; Políticas Públicas, Regiões Metropolitanas, Expansão Urbana, Mobilidade Espacial e Ocupação de Áreas de Proteção Ambiental, ela tem uma posição bem particular sobre o assunto.

Para a pesquisadora, entre os principais problemas das metrópoles brasileiras estão a falta de parâmetros bioclimáticos no planejamento das cidades, na implantação de loteamentos, condomínios, edifícios, conjuntos residenciais; a falta de um sistema de drenagem capaz de conduzir as águas das chuvas para os rios e solos disponíveis como consequência da impermeabilização do solo excessiva e supressão da vegetação; excesso de veículos nas ruas e avenidas por deficiência do sistema de transporte público e ciclovias integrados com aeroportos, rodoviárias, estações de trens, escolas, setores públicos, comércio, serviços, lazer; falta de planejamento preventivo; falta de integração entre órgãos públicos de planejamento; e falta de visão do conjunto das necessidades, "o que acaba determinando a aplicação de ações isoladas e desconexas, aumentando custos com a reconstrução ou ´reforma´ de obras públicas, gerando problemas relativos ao mal uso de dinheiro público".

As consequências surgem na forma de grandes enchentes em cidades como as da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), com a paralisação do sistema viário - com prejuízos para comércio e serviços, indústrias, hospitais, sistemas de segurança; falta de segurança no trânsito no momento da chuva intensa; contaminação das pessoas com a água das chuvas; e aumento no número de mortes causadas por desastres ambientais (deslizamentos, enxurradas, inundações).

Ela destaca que, somado a isso, ainda vivemos num contexto que inclui desigualdade social; pobreza; deficiências no reconhecimento das áreas vulneráveis; e da falta de integração dos diferentes níveis da sociedade (governo, empresas, corpo técnico) para realizar os ajustes necessários.

Para a promoção de sinergias entre a mitigação e a adaptação, Andrea considera fundamental um Planejamento Urbano Ambiental e Bioclimático com base em princípios ecológicos; uso eficaz da energia (produção e consumo); e redução das desigualdades sociais.

Para isso, vê a necessidade de repensar as relações considerando o clima, com espaçamentos e recuos dos recursos naturais; altura, disposição dos edifícios (insolação e ação dos ventos); e escolha de materiais permeáveis e que absorvam menos calor. "Precisamos mudar a lógica. Acordos equitativos e eficazes são necessários. Mas o sucesso depende da mudança de comportamento e da opinião pública", destaca.

Andrea acredita que nossos gestores precisam investir em habitação segura para as pessoas que estão em áreas de risco; sistema viário afastado de rios e córregos para garantir o extravasamento da água no momento de cheia; parques lineares com a preservação das bacias; sistema de transporte público seguro e de qualidade; ciclovias seguras, com trajetos e larguras adequadas para o ciclista se sentir seguro; e preservação da vegetação integrada aos edifícios e espaços urbanos. "Para isso, é fundamental a implantação de um sistema de gestão integrada, pela necessidade de cooperação de todos os órgãos e equivalência de importância e jurisprudência".

Cidade Sustentável

Luanda Nero, coordenadora de Comunicação da Rede Nossa São Paulo, responsável pelo Programa Cidades Sustentáveis ao lado da Rede Brasileira por Cidades Justas e Sustentáveis e Instituto Ethos, destaca que o Programa tem como objetivo sensibilizar, mobilizar e oferecer ferramentas para que as cidades brasileiras se desenvolvam de forma econômica, social e ambientalmente sustentável.

"São grandes os desafios e, para termos êxito em ações que contribuam com a sustentabilidade, será necessário o envolvimento de cidadãos, organizações sociais, empresas e governos", destaca.

A Plataforma Cidades Sustentáveis é uma agenda para a sustentabilidade das cidades que aborda as diferentes áreas da gestão pública em eixos temáticos e incorpora, de maneira integrada, as dimensões social, ambiental, econômica, política e cultural; indicadores gerais associados aos eixos da plataforma; indicadores básicos que farão parte dos compromissos de candidatos e prefeitos; e casos exemplares e referências nacionais e internacionais de excelência para a melhora integrada dos indicadores das cidades.

ANÁLISE
Acreditar num futuro diferente

Nossas cidades invariavelmente nasceram junto a rios, lagoas e outros recursos hídricos necessários ao bem-estar das pessoas. Mas, da mesma forma que necessitamos de recursos, não aprendemos, ainda, a valorizá-los devidamente.

O crescimento destes espaços urbanos promove a impermeabilização de margens de rios, lagoas, encostas de morros, dunas. Quando chove muito e as tragédias acontecem, esses recursos são tachados de vilões. E vale acrescentar que os prognósticos, com as mudanças climáticas, são de secas e tempestades mais intensas.

Pode soar utópico o desejo de ver cidades harmonizadas com os ambientes nos quais se desenvolvem, mas acredito que este é um caminho possível para garantirmos um futuro saudável aos nossos descendentes.

Cidades como Curitiba têm conseguido, com uma certa dose de ousadia, vencer os desafios que se avolumam. Vimos recentemente, durante a realização do V Encontro Intercontinental sobre a Natureza (O2), em Fortaleza, o exemplo de Seul, capital da Coreia do Sul, que se tornou modelo depois de recuperar e revitalizar o rio local mais importante, que estava degradado. Para isso, foi demolido um viaduto de aproximadamente 620 mil toneladas, um investimento de US$ 380 milhões para assegurar a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos.

Mas essas ações nos estimulam a acreditar, mobilizar, incentivar, plantar ideias no sentido de que o espaço urbano não precisa ser, no futuro, um lugar inóspito, considerando que a maioria da população tem buscado, nas cidades, oportunidades.

Fonte: Diário do Nordeste

RBCM. Laboratório de Investigação do Espaço da Arquitetura. Departamento de Arquitetura e Urbanismo. Centro de Artes e Comunicação. UFPE . Recife — PE. (81) 2126.7362