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Cidades têm que limitar moradores, diz geógrafo

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O presidente da Sociedade Cubana de Geografia, José Manuel Mateo Rodriguez, esteve em Maringá nesta semana para ministrar uma Oficina de Geografia Urbana aos membros do projeto Indicadores Ambientais da Região Metropolitana de Maringá, coordenado pelo professor Fábio Angeolotto.

Em entrevista a O Diário, Rodriguez afirma que cidades médias como é o caso de Maringá precisam criar mecanismos para impor limites populacionais para não se tornar uma grande metrópole com um custo social enorme.

Na terceira visita que faz a cidade, o professor cubano elogiou a qualidade de vida oferecida pela arborização e pelos parques. "Não conheço o nível de gestão ambiental, mas aqui tem parque, tem verde, praças, o que é bom", diz.

Ele também alertou para a necessidade de manter as atenções em relação ao planejamento. "A cidade é uma estrutura física que se impõe a uma estrutura natural. O resultado da contradição é que se a estrutura que se impõe não tem nada a ver com a estrutura natural, começa o problema", analisa.

Rodriguez também fala na entrevista sobre o que pensa da Venezuela de Hugo Chavez, a quem admira, e das mudanças econômicas que acontecem atualmente em Cuba, onde o povo convive com dois circuitos econômicos.

"Um, em dólar, é caro, e tem 10% da população incluída. No outro, os preços são mais baixos, sobrevive-se, mas é restrito a alguns produtos. O governo trabalha para unir os dois modelos"

"Avalio ser importante que os moradores de Maringá entendam que não é bom se tornar uma grande metrópole. É interessante ter um limite, um patamar’’

"Temos orgulho da nossa luta de 53 anos. Não temos um socialismo russo, mas um socialismo aberto, com gays, com lésbicas, com simpatizantes. É o socialismo latino-americano’’

O Diário - Qual o caminho que cidades médias, como Maringá, devem seguir para conciliar o desenvolvimento com a qualidade de vida?

Jospe Manuel Mateo Rodriguez - Defendo que as cidades médias, como Maringá, não cresçam demais, mas continuem a ser polos de atração para outras cidades. Não pode crescer demais, mas precisa buscar mecanismos para ter uma interconectividade maior com as cidades vizinhas da região. Não só do ponto de vista econômico e tecnológico, mas cultural e de serviços.


O Diário - Como impedir um crescimento acima do ideal? O senhor defende que o governo imponha algum limite?

Jospe Manuel Mateo Rodriguez - Pode ser. É uma questão de governabilidade. O governo pode impor limites, mas é melhor investir em medidas sociais que estimulem o crescimento das outras cidades. E o mais importante, nessa relação entre as diferentes cidades de uma região, é que nem todos os atrativos fiquem na cidade polo. Avalio ser importante que os moradores de Maringá entendam que não é bom se tornar uma grande metrópole. É interessante ter um limite, um patamar.


O Diário - Qual seria o limite de crescimento para uma cidade?

Jospe Manuel Mateo Rodriguez - Entendo que as grandes cidades, com mais de 5 milhões de habitantes, não conseguem ser sustentáveis, pois demandam muita energia, policiamento, atendimento de Saúde, entre outros, que expõem a população a riscos e perigos. Em cidades muito grandes, existe muita vulnerabilidade, o que provoca um custo social enorme. Entendo que em cidades com no máximo dois milhões de habitantes ainda é possível, mais ou menos, pensar em sustentabilidade. A partir disso, a grande estrutura urbana vai se consistir em um problema social.


O Diário - Qual é a tendência atual no Brasil. As grandes metrópoles vão crescer mais ou vai haver uma busca maior por cidades médias?

Jospe Manuel Mateo Rodriguez - Ocorre um fenômeno interessante na América Latina e no Brasil. As pessoas deixam as grandes cidades e existe uma tendência de formação de um tecido (conjunto) de cidades médias e pequenas, que garantem muitos dos serviços oferecidos nas metrópoles. Isso se deve em parte à informática, que proporcionou um novo meio de se relacionar. Hoje, não precisamos mais estar no local para trabalhar e para manter comunicação. Isso leva a uma situação cada vez mais interessante que proporciona uma importância maior para as cidades médias, onde é possível ficar ligado no mundo, mas com mais conforto, com menos poluição, com um relacionamento maior com as pesosas e com a comunidade e com mais possibilidade de relação com todo o entorno.


O Diário - Como as cidades médias podem crescer de forma sustentável, evitando problemas como o da água e da preservação dos fundos de vale?

Jospe Manuel Mateo Rodriguez - A cidade é uma estrutura física que se impõe a uma estrutura natural. O resultado da contradição é que se a estrutura que se impõe não tem nada a ver com a estrutura natural, começa o problema. Os governos normalmente não acreditam e colocam ruas, avenidas e prédios em contradição. Tem que haver planejamento e organização. Não só arquitetônico, urbanista, mas um planejamento ambiental e geográfico. Sabemos que cidades como Maringá, Londrina e Cascavel nasceram planejadas, mas depois de um determinado patamar, começou a bagunça e quebrou-se a conciliação com a estrutura natural, criando o conflito.


O Diário - Quais os principais problemas das cidades atualmente e a quem cabe resolver essas questões?

Jospe Manuel Mateo Rodriguez - É a prefeitura que tem de lidar com todos os problemas, desde a estética, preocupando-se em manter um visual bonito, como na questão do planejamento, da estrutura, da água, do lixo, do verde, da cultura. São problemas da prefeitura e da sociedade também, pois o governo pode colocar algumas normativas, mas as pessoas podem agir contrariamente e vai surgir o conflito. Tem que haver uma consciência coletiva sobre o problema da cidade.


O Diário - Em relação ao lixo, por exemplo, em que a separação dos recicláveis é extremamente necessária. Como trabalhar a questão?

Jospe Manuel Mateo Rodriguez - Conheço o exemplo da Alemanha, que tem uma coleta seletiva fabulosa e uma cultura de obrigação. Aqui no Brasil o lixo é jogado na calçada, a céu aberto, e fica exposto. Na Alemanha, o lixo está em grades com cadeados e cada prédio, cada moradia é responsável por tirar o lixo no horário certo e entregar. E se não separa, paga multa. É uma questão de cultura. Acredito que o lixo tem que ser separado e que vire lucro para os catadores, para que eles se tornem donos de cooperativas e possam viver melhor.


O Diário - A saída é aplicar multas para conscientizar?

Jospe Manuel Mateo Rodriguez - Ideal seria que as pessoas tivessem consciência e que não fosse sob pressão. Mas tem que ter autoridade, porque se não coloca pressão, muita gente não faz. Na Alemanha que é um país culto tem que ter autoridade. É preciso misturar os dois caminhos, da pressão e da consciência, para resolver o problema.


O Diário - Em relação a Cuba, quais as mudanças na área econômica que ocorrem no país?

Jospe Manuel Mateo Rodriguez - Cuba sempre agiu como uma fortaleza sitiada, fechada. Agora tenta se abrir para o mundo para melhorar a qualidade de vida da população. É um processo que começou nos anos noventa, quando mais de 70% do gado morreu por falta de alimento e a produção de cana-de-açúcar baixou 90%. Era o segundo maior produtor de açúcar do mundo e agora importa o produto. O país precisou então se adequar, pois a maioria da economia agia como empresas estatais não eficientes e começou a haver um processo de corrupção. Agora, aprovou-se o alinhamento da política econômica. O estado vai continuar a ser socialista, ou seja, o fundamental vai ser a propriedade estatal e as empresas do governo vão precisar ter um nível de eficiência, com metas a cumprir. Ao mesmo tempo, vai se permitir a abertura de pequenos negócios, como pousadas, empresas de taxi, restaurantes, que vão poder crescer até um limite, para que não ocorra uma concentração da propriedade privada e não vire capitalismo. Podemos falar nisto como o socialismo do século XXI.


O Diário - O senhor acredita que Cuba possa se tornar uma economia capitalista?

Jospe Manuel Mateo Rodriguez - Não. Um dia pode virar, mas acho que, na realidade, vamos ter uma matriz socialista com alguns elementos de propriedade individual. Se virar capitalista, nós perderemos muita coisa. Perderíamos a independência, a liberdade e a dignidade. Seríamos uma colônia de Miami com uma bandeira americana hasteada, pior que Porto Rico. Na minha opinião, Cuba precisa ter uma readequação econômica, que é o que esta sendo feito. Temos orgulho da luta de 53 anos. Não temos um socialismo russo, mas um socialismo aberto, com gays, com lésbicas, com simpatizantes. É o socialismo latino-americano.


O Diário - O que o senhor pensa sobre o presidente da Venezuela Hugo Chavez?

Jospe Manuel Mateo Rodriguez - Eu gosto do Hugo Chavez. A Venezuela não é uma ditadura. É uma grande bagunça. Na minha percepção, eu avalio que o presidente Chavez faz um trabalho extraordinário para organizar o país, que é muito complicado. Há muito boato e muita reclamação, mas a Venezuela não é uma ditadura.

Fonte: odiario.com - Maringá
Por: Murilo Gatti

RBCM. Laboratório de Investigação do Espaço da Arquitetura. Departamento de Arquitetura e Urbanismo. Centro de Artes e Comunicação. UFPE . Recife — PE. (81) 2126.7362