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7 Lições do Novo Guia de Projeto de Habitação Acessível de Nova Iorque

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Quando pensamos em projetos de habitação social nos Estados Unidos, muitas vezes pensamos em caixas: grandes edifícios de tijolos, sem muito caráter estético. Mas as implicações dos arranha-céus padronizados e reluzentes podem ser muito mais do que estéticos para as pessoas que vivem lá. O geógrafo Rashad Shabazz, por exemplo, lembra em seu livro Spatializing Blackness, como o projeto habitacional em Chicago, onde cresceu - repleto de grades, vigilância por vídeo e detectores de metal - parecia mais uma prisão do que uma casa. Relatos de isolamento, confinamento e manutenção inadequada são ecoados por residentes de habitações públicas em todo o país.

Mas a habitação pública americana não precisa ser desolada. Um novo conjunto de padrões de projeto da Comissão de projeto Público de Nova Iorque (PDC) - em colaboração com a Federação de Belas Artes de Nova Iorque e o Instituto Americano de Arquitetos de Nova Iorque - espera virar uma nova página na arquitetura habitacional acessível.

Lançado no início deste mês, "Designing New York: Quality Affordable Housing" discute as melhores práticas no planejamento de habitações sociais e fornece estudos de caso de projetos de habitação acessível bem sucedidos já concluídos em Nova Iorque, muitos dos quais foram projetados por escritórios de alto nível como Ennead e SHoP Architects. Enquanto o documento serve como “uma referência para as agências da cidade de Nova Iorque e seus candidatos que buscam orientação sobre projeto de moradias populares”, é escrito em linguagem acessível a pessoas fora das profissões de projeto e foi divulgado publicamente com o objetivo de capacitar “cidadãos e organizações comunitárias” exigindo excelência em projetos habitacionais acessíveis em seus bairros”.

O relatório chega seis meses depois que o prefeito Bill de Blasio anunciou que construiria e preservaria 300.000 unidades habitacionais a preços acessíveis até 2026. Seu plano - que é uma versão atualizada de um plano de 2014 que deve ser concluído antes do prazo - irá “preservar a acessibilidade de 180.000 unidades de apartamentos existentes e construir 120.000 novas unidades”.

Os arquitetos que projetarem essas novas unidades nos próximos anos terão sugestões do guia de projeto. Mas arquitetos em todo o mundo também podem aprender com o documento. Aqui estão algumas dicas importantes do Designing New York:

1. Seja criativo com o volume e respeitoso com escala

Desviando-se dos grandes blocos que dominaram habitações públicas americanas por décadas, o Designing New York recomenda dividir o volume dentro de um edifício para permitir a variação nas unidades e a criatividade dentro do código de zoneamento. O Creston Avenue Residence, no Bronx, usa volume não convencional para mesclar-se com a escala de vizinhança (na maioria edifícios de apartamentos de cinco andares) enquanto maximiza o número de unidades oferecidas. Nesse projeto da Magnusson Architecture & Planning, as fachadas voltadas à rua “alinham-se às residências mais antigas adjacentes e refletem sua escala menor, enquanto a parte central, revestida de painéis de metal, é recuada para criar uma entrada coberta generosa”.

2. Projetar com o bairro em mente integrando serviços ausentes

Quando bairros de baixa renda carecem de supermercados com opções saudáveis e locais para atividades físicas (como parques e academias de ginástica), habitações públicas projetadas conscientemente podem preencher algumas lacunas para melhorar a saúde dos seus moradores. No Arbor House, no bairro de Morrisania, no Bronx, amplas escadarias são projetadas com luz natural para incentivar seu uso. Da mesma forma, um jardim no terraço atende às necessidades de produção de alimentos dos moradores.

3. Não faça que a habitação acessível seja vista como moradia de baixa renda

Demasiadas vezes, as divisões entre habitação pública e habitação a taxas de mercado são evidenciadas por estruturas visualmente diferenciadas. Quando a moradia acessível é marcada por uma arquitetura pejorativa, os moradores podem se tornar estigmatizados ou marginalizados no bairro. Les Bluestone, um defensor da habitação a preços acessíveis e co-fundador da Blue Sea Development Company, afirma que “o melhor papel que o projeto pode desempenhar é não definir os edifícios como habitações acessíveis. Tudo o que podemos fazer para nos afastar disso ajuda a comunidade”.

4. Inovação estrutural pode superar a dificuldade local em benefício dos moradores

Em uma cidade tão densa quanto Nova Iorque, muitos dos novos projetos habitacionais acessíveis ocupam parcelas adicionais do solo da cidade. O Frost Street Apartments, em Williamsburg, Brooklyn, por exemplo, fica ao lado da Brooklyn-Queens Expressway, uma rodovia de seis pistas. A fim de mitigar a perturbação sonora nos apartamentos, a Curtis + Ginsberg Architects empregou “janelas de alto desempenho e uma estrutura pesada de alvenaria e concreto”.

O Schermerhorn no Boerum Hill, no Brooklyn, oferecia condições igualmente difíceis, situadas sobre duas linhas de metrô. De acordo com o Designing New York, “para construir… sobre duas linhas de metrô que passam abaixo do local, foi necessária uma estrutura de treliça e balanços que utilizou a maior parte do orçamento de construção”. O resultado da construção em um terreno difícil é de 109 unidades para pessoas que antes eram desabrigadas e pessoas vivendo com HIV/AIDS.

5. A construção verde é mais do que apenas sustentabilidade

Reminiscente dos edifícios pátios vernaculares, Navy Green emprega formas variadas de construção (moradias e arranha-céus de tamanhos variados) em torno de um pátio central. Os moradores, por sua vez, têm acesso a ar fresco, luz natural e espaços verdes fora da janela, independentemente da localização da unidade no complexo.

6. O projeto não irá resolver tudo

O relatório Designing New York oferece uma promissora mudança de paradigma para confinar a arquitetura e construção comunitária, mas é importante lembrar que a moradia pública bem projetada ajudará, mas não resolverá a crise imobiliária da cidade de Nova Iorque. A cidade continua a lutar com sua definição de acessibilidade, que se baseia em rendimentos médios distorcidos para a área. O Departamento de Preservação e Desenvolvimento de Moradia também está sendo examinado este mês por sua política de seleção de residentes. E como os moradores de baixa renda na cidade são expulsos de suas casas todos os dias, até mesmo um compromisso substancial da cidade para construir novas unidades provavelmente não conseguirá acompanhar o deslocamento.

7. Cidades diferentes (e países) precisam de suas próprias soluções de projeto

Embora devamos admirar a tentativa da cidade de Nova Iorque de fornecer moradia digna para residentes de baixa renda, a história da arquitetura nos mostra que a habitação pública não pode seguir um modelo único para todos. Se o sucesso da Unité d'habitation de Le Corbusier em Marselha, na França, em contraste com o similar (mas fracassado) Projeto Habitacional Pruitt-Igoe em St. Louis, Missouri, é uma indicação, diferentes regiões precisam de diferentes tipos de habitação social. O relatório Designing New York tem consciência desse fato, incentivando projetos específicos ao local e específicos para residentes. Vale lembrar que, mesmo que os Frost Street Apartments sejam ótimos para o Brooklyn, eles não devem ser simplesmente implantados em qualquer lugar do mundo. As lições que aprendemos da atenção desses projetos para as necessidades residenciais, no entanto, devem ser amplamente aplicadas.

Fonte: ArchDaily

RBCM. Laboratório de Investigação do Espaço da Arquitetura. Departamento de Arquitetura e Urbanismo. Centro de Artes e Comunicação. UFPE . Recife — PE. (81) 2126.7362